Conlang
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Há vários manuais internet afora sobre como inventar um idioma. Muitos deles em inglês, obviamente, como o excelente verbete do Wikibooks "Conlang". O texto a seguir apresenta um passo a passo funcional que possa ser seguido pela maioria dos interessados.

Por que uma língua?[]

Ao contrário do orientado no conhecido Kit de Construção de Línguas, de Mark Rosenfelder, pode ser desvantajoso criar um léxico antes da gramática. Idiomas como o Esperanto têm a morfologia baseada na gramática, de forma que a criação inicial do léxico pode ser um empecilho. Antes disso, pergunte-se por que inventar uma língua e, se arrumar um bom motivo para tamanho trabalho, considere pensar em como ela soaria, como seria sua gramática. É importante ter isso em mente durante o desenvolvimento da conlang de forma criar um objetivo a ser alcançado. Uma sugestão honesta: aprenda Esperanto, pois é uma ótima língua para aprender a pensar a gramática de maneira ativa.

IPA ou AFI[]

Objetivos estabelecidos, está na hora de colocar a mão na massa. Um idioma é um conjunto de palavras, frases e textos que servem ao propósito da comunicação. Cada palavra é formada por um conjunto de sons e cada um desses sons estão representados no Alfabeto Fonético Internacional (em português, AFI). É importante delimitar a quantidade de fonemas que a nova língua abarcará. Isso pode ser alterado ao longo da construção, mas começar com uma delimitação é fundamental. Quanto mais fonemas a usar, mais complexa pode ser sua conlang.

Alfabeto[]

Sua língua terá alfabeto próprio? Se sim, você considera fazer uma transliteração ao alfabeto latino? Pense sobre isso. A inexistência de uma transliteração pode fazer com que sua conlang fique muito restrita a um seleto grupo de pessoas. A não ser que essa seja a intenção...

Há vários alfabetos existentes, mas você pode criar o seu próprio. J. R. R. Tolkien criou alfabetos próprios para seus idiomas. O criador do Esperanto, L. L. Zamenhof, preferiu trazer sinais diacríticos para alterar letras do alfabeto latino. As possibilidades são incontáveis.

Gramática[]

Sugere-se que busque aulas internet afora sobre classes gramaticais, morfologia, sintaxe, etc. Há bons podcasts sobre Linguística em Português (Babel Podcast é uma boa sugestão pois, em cada episódio, apresenta uma ficha técnica sobre a língua discutida). A gramática revela como sua língua se estrutura. É aqui que você define a sintaxe (sujeito-verbo-objeto, como em Português; sujeito-objeto-verbo, como em Hindi, etc.), declinações, desinências, flexões, etc.

Sintaxe[]

É a ordem das palavras numa frase. É a sintaxe que vai influenciar em como sua língua estrutura um texto. Para autores de literatura especulativa que queiram fazer uma conlang, pense em como a cultura do povo falante da língua influencia a sintaxe da língua. O que seu povo fictício está preocupado em saber primeiro: quem fez a ação, qual ação foi feita ou a quem a ação foi feita? A sintaxe influencia o significado das frases? O lugar do verbo altera seu tempo ou modo?

Morfologia[]

Aqui, você pensará sobre como sua língua forma palavras. É assim que começamos a pensar o léxico (embora você já possa começar a fazer isso desde o início desse processo). Sua língua será isolante como o Mandarim, aglutinante como o Esperanto e o Alemão ou flexionante como o Português? A estrutura flexionante é sempre a mais complexa. Uma língua natural envolve uma mistura das três formas, priorizando uma delas.

Como seria uma estrutura isolante?[]

Observe atentamente todas as palavras nesta frase. Agora veja o que se pode fazer com elas numa simulação de estrutura isolante: Pessoa (partícula da segunda pessoa) olhar (imperativo) atenção (partícula de adjetivo) (partícula de advérbio) tudo palavra (partícula de plural) (partícula de lugar) isto (partícula de aproximação) frase. Eis uma estrutura isolante. Os núcleos são apresentados juntamente com alguns adjuntos e as alterações nos núcleos e adjuntos são feitos por meio de partículas, palavras que tem a única função de indicar essas alterações.

Um exemplo em Português de estrutura isolante é extrair um verbo e colocá-lo em mesóclise: "apresentar-lhe-ei". A palavra dada como exemplo significa uma frase inteira ("Vou lhe apresentar") e demonstra um núcleo (apresentar), o pronome oblíquo "lhe" e a partícula futura "ei". Esta não tem qualquer significado se colocada isoladamente ou em outro contexto ("Vou à padaria ei comprar biscoitos". "Ei", não faz sentido aqui), mas demonstra o tempo futuro em "apresentar-lhe-ei". Ela aparece como flexão (apresentarei), mas aqui foi exemplificada para fins didáticos.

Como seria uma estrutura aglutinante?[]

A Língua Portuguesa tem poucos exemplos de estruturas isolantes, mas bastante exemplos de estruturas aglutinantes. Posso citar as palavras super-homem, extramuros, infraestrutura, hidrelétrica, micro-ondas... são todas palavras que unem duas palavras, dois conceitos para formar um só.

Como seria uma estrutura flexiva?[]

Basta pensar na estrutura mais básica da Língua Portuguesa e da maior parte das línguas românicas (derivadas do latim). Na frase "Eu vou caminhar longamente até que me canse" vemos o verbo "ir" flexionado na primeira pessoa do singular no tempo presente do modo indicativo; o verbo caminhar, forma verbal do substantivo "caminho"; longamente, advérbio advindo do adjetivo "longo"; "canse", flexão da primeira pessoa do singular no tempo presente do modo subjuntivo, etc. Várias palavras estão flexionadas ou derivam de outras palavras por flexão. Assim é uma língua flexiva.

Há também outras estruturas, como a polissintética e oligossintética.

Léxico[]

A criação do léxico perpassa todo o processo da elaboração de uma conlang. Desde a primeira ideia de possibilidade de criação da língua, imaginamos como seriam as palavras nesse idioma e começamos a nomear as coisas baseado ou não em uma língua já existente. Aqui ficam duas subdivisões:

A posteriori

É a conlang que se baseia em outro idioma. O Esperanto é baseado em línguas indo-europeias, principalmente românicas. O Sindarin é baseado no Galês. O Heramene é baseado em línguas indo-arianas e dravídicas. Todos esses idiomas são advindos de outros idiomas pré-existentes. Todas as línguas naturais hoje existentes podem ser classificadas como línguas a posteriori. Criar línguas a posteriori não são um trabalho menor ou mais fácil, apenas a via mais natural para o sucesso fonético de uma conlang pois os fonemas e as estruturas que estão disponíveis nas línguas naturais já foram amplamente testadas e funcionam.

A priori

Línguas a priori são tidas como o suprassumo do trabalho do conlanger, mas pouquíssimos projetos podem ser citados como exemplo: o Solresol, o Na'vi, o Klingon, dentre outros. Aqui, a língua será criada do zero, sem nenhuma (ou quase nenhuma) base em outros idiomas.

Documente![]

Crie um dicionário[]

A documentação da sua conlang é a principal forma do seu trabalho atrair pessoas interessadas em conhecê-lo e de preservá-lo para a posteridade. Para isso, anote todas as ideias e teste-as. Baixe algum dicionário em arquivo .doc, .docx ou .odt e edite-o de forma a construir, pouco a pouco, um dicionário de tradução. Também é legal anotar a etimologia das palavras, se sua conlang for a posteriori, pois isso facilita a pesquisa e demonstração do seu método de trabalho como conlang.

Traduza textos famosos para a sua conlang[]

Um meio de praticar seu idioma, testá-lo e observar a necessidade de ampliar o léxico é traduzindo. Textos simples, como o trecho da Torre de Babel na Bíblia (Gn 11,1-9), o Pai Nosso ou frases do livro O Pequeno Príncipe são muito conhecidos por conlangers e usados amplamente para testar e divulgar o idioma. Escrever o dicionário do início ao fim sem um propósito pode fazer com que você se perca e/ou se desestimule.

Legendar um trecho do seu filme favorito também é uma boa maneira de pôr sua conlang em uso.

Ensine sua conlang[]

Poucos conlangers são preocupados em deixar uma documentação dos trabalhos feitos, de forma que a língua se perde com o tempo e/ou ninguém consegue aprendê-la de fato. É extremamente frustrante não conseguir meios de aprender um idioma que parece interessante, então disponibilize sua ideia.

Liberando a obra para uma comunidade[]

Não seja egoísta com sua conlang. O Volapuk teve problemas de expansão do idioma para língua franca internacional porque seu autor queria deter para si todas as decisões sobre o mesmo, ao contrário do que fez Zamenhof e isso contribuiu para que o Esperanto se difundisse mais e o interesse no Volapuk diminuísse. Considere inclusive montar um curso gratuito para que outras pessoas aprendam ao menos o básico da sua conlang. Vários sites oferecem hospedagem gratuita de blogs, podcasts, etc. Você pode, também, divulgar sua ideolíngua no grupo Conlangs Brasil, no Facebook. Assim você mostra seu trabalho e, quem sabe, conquista pessoas para conversar com você no seu idioma inventado. Isso me leva para a última parte desse breve tutorial:

Aprenda seu idioma[]

De nada adianta ter todo esse trabalho e largá-lo às traças. Um idioma que não é usado é um idioma morto e gerar um idioma natimorto fere o objetivo que você traçou no início desse texto. Então, pratique seu idioma, crie sites na sua conlang, crie podcasts com áudios seus praticando o idioma e ouça-os de forma a buscar sua fluência. Não deixe seu idioma morrer...

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